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Ouse Sonhar!



Hoje, 19 de maio, completam-se 2 anos que alcancei o cume do Monte Everest, o topo do mundo como costuma ser chamado! Alcancei o ponto mais alto da superfície da Terra, o mais alto que pode ser alcançado pelo homem com seus próprios pés, sem auxílio de equipamentos como um avião!


Com absoluta certeza este fora o projeto mais importante que jamais me dedicara! Demandou esforços imensos, como pedir demissão, abrir mão de uma carreira que, sob a ótica de muitos, mostrava-se bem sucedida, abdicar de confortos pessoais e financeiros! Mas olhando para trás agora vejo que esse fora um projeto iniciado muito antes, quando eu sequer me imaginava um montanhista! Pelo contrário, quando tinha certeza que isto era algo que não era para mim.


Apesar de, dado os longos anos que me separam daqueles tempos, lembrar poucas coisas dos meus primeiros anos de vida, lembro como se fosse hoje de, na época com 6 anos de idade, acompanhar a conquista de Waldemar Niclevicz e Mozart Catão como os primeiros brasileiros a alcançar o topo do Everest! Da mesma forma que recordo de me deslumbrar com as imagens que chegavam até mim via Esporte Espetacular, recordo de me lamentar que nunca teria uma oportunidade daquelas, estar em uma montanha gelada parecia sonhar demais para uma criança que crescia no noroeste do Rio Grande do Sul!

Igual deslumbramento ocorreu quando tive a oportunidade de encontrar com o Waldemar alguns anos depois, no Jamboree PanAmericano, em Foz do Iguaçu! Então com 11 anos estava na minha primeira incursão pelo mundo. Apertar a mão daquele cara que tinha visto pela televisão e ver que era de verdade deu um sentimento de realidade para tudo aquilo! Mas ainda me parecia coisa de pessoas especiais, tanto que minha vida tomou rumos bem diferentes! A semente estava plantada, porém, mais uma vez, não me permiti sonhar!


Os anos passaram, por caminhos tortos fui levado pelo acaso ao encontro da escalada e do montanhismo outra vez! Primeiro foi a escalada em rocha, esportiva, de trechos curtos! Depois a escalada tradicional, de grandes paredes e demandando muito mais comprometimento! Foi numa dessas viagens de escalada que a maior montanha do mundo voltou ao meu imaginário, e foi mais de uma vez, e sem que eu a buscasse!

Meados de setembro de 2014 estava no Aeroporto Zumbi dos Palmares, em Maceió/AL (nesta época residia em Arapiraca/AL) embarcando ao Rio de Janeiro/RJ para um feriado qualquer de escalada, e como tal minha mochila continha muitos equipamentos, dentre eles uma corda pendurada ao lado de fora! Essa corda chamou a atenção de um menino que viajava com seus pais e, com a inocência que só uma criança tem, ele me puxou pela camisa e perguntou se eu era alpinista. Afirmei que sim, quando ele devolveu com outra pergunta:

- Você já escalou o Everest?

Respondi que não, claro! Mas aquilo prendeu minha atenção por toda a viagem, até o momento que, já em Copacabana, entrava no apartamento da amiga que me receberia por aqueles dias! Na ansiedade de se desfazer de um presente de um ex namorado nossa conversa iniciou com ela me entregando um livro, que ela introduziu com as seguintes palavras:

- É sobre essas coisas que tu gosta, quem sabe te interesse! - E largou em minhas mãos "No Topo do Mundo", de Rodrigo Raineri. Apesar de adepto da leitura, acho que nunca li um livro tão rapidamente!


Como já havia experienciado algumas atividades de montanha, após essa viagem me senti compelido a experimentar outra modalidade, o montanhismo de altitude, de escalada em gelo, e menos de um ano depois embarcava para a Bolívia! Essa viagem já foi tema aqui no blog, mas para resumir, ela foi transformadora. Retornei sem saber explicar o que havia sentido, mas com a certeza de que voltaria a lugares como aqueles que havia estado naqueles dias, voltaria à alta montanha!


Depois daquela viagem comecei a sonhar em escalar o Aconcágua, o sentinela de pedras! Isso realizou-se em janeiro de 2017! E ao descer do cume das Américas senti que precisava sonhar mais alto, e mais alto, agora, era o Everest! O que aconteceu depois disso, é história!


Escalar o Everest foi transformador! O Henrique que subiu é muito diferente daquele que desceu dos confins do Himalaya! Mas, como podem imaginar, enquanto estamos lá tudo é muito intenso, e o processamento de todas aquelas experiências demoram um pouco a acontecer! E arrisco dizer que muitas coisas que aconteceram lá só serão compreendidas daqui alguns anos, quando for provocado por alguém a pensar em algo sobre a expedição, assim como fui alguns dias atrás. Estava me preparando para um bate papo com jovens num encontro interamericano de escoteiros, quando contando parte destas histórias de acima, fui questionado sobre qual teria sido o divisor de águas para embarcar nessa história!

Pestanejei a responder. A verdade é que nunca havia pensado nisso de maneira específica, sempre tinha entendido que havia sido um desenrolar de casualidades! Ao reviver tudo isso que relatei a vocês me pus a pensar qual era a diferença entre aquele menino de 6 anos que havia se deslumbrado com a história da TV, para aquele homem que havia me tornado!


Claro que a resposta não veio de bate pronto! Mas hoje, depois de muito meditar e refletir sobre isso, percebo que o caminho percorrido me ensinou muita coisa que me ajudou a realizar esse feito, mas no fundo todos esses ensinamentos na verdade ocasionaram uma grande mudança: o Henrique que embarcou para o Nepal em 31 de março de 2018 tinha uma diferença fundamental em relação à sua versão de 23 anos antes, o Henrique de agora se permitiu sonhar! E foi a capacidade de sonhar que me levou a buscar todo resto que me faltava a me tornar capaz de escalar a maior montanha do mundo!


E de todas lições que essa montanha já me ensinou, acho que finalmente, 2 anos depois de chegar ao seu cume, consigo materializar em palavras: Ouse Sonhar!

Acho que isso é o que eu diria para mim mesmo se pudesse voltar no tempo e sentar ao meu lado em frente a TV enquanto assistia alguém alcançar o que eu faria algum tempo depois!


Sonhar torna os objetivos tangíveis, e a partir disso ser capaz é questão de ambição e muita dedicação!




Artigos citados: Expedição Bolívia 2015





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