Climbing for Water Khumbu

Que alegria! Depois de mais de um ano de amadurecimento começa a tomar forma um projeto sonhado junto com a vontade de viver uma vida nas montanhas! Colocamos no ar a campanha de financiamento coletivo do Climbing for Water, e com isso começamos a compartilhar com o mundo esse sonho e vontade de ajudar o vilarejo de Phortse e seus moradores a restabelecer e aprimorar seu sistema de abastecimento de água!




Mas como nasceu essa ideia?

O projeto nasceu após realizar o sonho de escalar o Everest! Em 2018, ao retornar da expedição que tinha sido o foco de todas minhas atenções até então precisava responder a pergunta que todos me faziam desde o dia que deixei o trabalho, um ano antes "O que irá fazer depois?". O depois havia chegado, e estava decidido a continuar vivendo uma vida dedicada às montanhas!

Tinha um porém! Como engenheiro ambiental, na minha passagem pelo Nepal e, principalmente, pelos vilarejos do vale do Khumbu, à caminho do campo base, não pude deixar de notar que as condições de infraestrutura, principalmente de saneamento, eram precárias. Um coisa me incomodava ao me imaginar voltando aquele lugar: como voltar diversas vezes, conviver com estas pessoas, e não, no mínimo, propor uma solução para problemas que até então estava habituado a resolver! Assim nasceu, junto com o Catorze8000+ e a preparação para a expedição ao Manaslu, a ideia de um projeto que ajudasse a dar um destino adequado ao esgoto gerado nos vilarejos do vale.


Ótimo, tinha uma ideia, mas como fazer para levar adiante? Até este momento a proposta, para iniciar era após a expedição ao Manaslu, utilizando de 10% dos patrocínios levantados para a expedição, ir até Phortse e conhecer mais sobre as estruturas sanitárias do povoado e da região. Foi neste momento, poucos dias antes de embarcar, que conheci o Angel, da 1%, uma empresa social voltada a ajudar projetos a levantar fundos para fazer as ações acontecerem, e num café em que compartilhei com ele minha ideia ele olhou nos meus olhos e disse "Tu não vai para lá fazer nada agora. Tu vai para lá saber o que eles precisam e querem que tu faça! Um projeto não deve ser feito 'para' as pessoas, mas 'com' as pessoas". Essas palavras ficaram na minha cabeça, e embarquei para o Nepal no dia 2 de setembro de 2019.


Com uma expedição muito mais rápida do que eu esperava, em função das condições do clima, chegamos ao cume em 27 de setembro, e assim eu teria mais dias do que esperava para me dedicar ao projeto. Estava conosco na expedição o Pemba, sherpa morador de Phortse que havia conhecido em 2018 e cuja família era proprietária do lodge onde eu me hospedaria durante os dias que estivesse lá. Por algumas vezes compartilhei com ele minha intenção de visitar Phortse e ajudá-los com uma solução para o esgoto, mas a verdade é que nunca me deu muita atenção, e eu não entendi. Apesar disso, ele me ajudou com toda logística para os dias que iria para lá!


Phortse, vilarejo no vale do Khumbu, a caminho do Everest Base Camp
Phortse vista do outro lado do vale - abril/2018

O caminho para Phortse

De Kathmandu, para chegar em Phortse, precisei empreender uma pequena jornada. Com o aeroporto doméstico de Kathmandu em reformas e os voos deslocados para outra cidade decidi que aproveitaria a oportunidade para conhecer a parte baixa do vale, que fazia parte do trekking ao campo base antes dos voos a Lukla tornarem-se mais populares. Foi uma verdadeira imersão em um país tão peculiar e culturalmente tão rico.

Saí de Kathmandu às 5h da manhã, em um jipe com mais 8 pessoas em direção à Phaplu, numa viagem que levou 15h. De Phaplu a Lukla foram mais dois dias de caminhada em ambiente bastante nostálgico. Esta região possui instalada toda infraestrutura para recepção dos trekkers e turistas, mas com o advento do aeroporto de Lukla a aproximação da estrada em construção é cada vez menos visitada! Uma região de florestas e rios caudalosos que nascem do degelo da cordilheira.

De Lukla à Phortse foram outros dois dias de caminhada, mas agora em uma região com a qual já estava familiarizado! Foi interessante fazer esse caminho outra vez, agora sozinho e com um objetivo diferente! Caminhei com calma e contemplando a paisagem, e me permitindo entender melhor o por que de estar ali.


Chegar à Phortse teve um gosto especial. Depois de um ano e meio reencontrei a família do Pemba, que às vésperas de escalarmos o Everest haviam nos recebido tão bem e, da forma mais genuína possível, colocado suas energias positivas ao nosso favor. Mais uma vez me receberam como se eu estivesse em casa, e de fato era assim que eu me sentia. Não sei explicar o que é, mas a minha conexão com este lugar tem explicações que não estão fora da minha capacidade de compreensão!




Conhecendo mais

Na estada anterior havia ficado apenas 1 dia ali, então agora, com quase 10 dias à disposição, poderia conhecer muito mais profundamente!

No primeiro dia pedi para o Lakpa, pai do Phemba, me mostrar um pouco mais do funcionamento do lodge e seu sistema de água, e aí começaram as surpresas e a orientação do Angel passou a fazer cada vez mais sentido. Não havia água encanada em Phortse, sequer havia um ponto de chegada em cada casa. O uso da água é extremamente limitado, pois ela chega através de vasilhames de 20L, carregados um a um pelos próprios moradores, e destinado a limpeza de utensílios da cozinha e higiene, como escovação de dentes e lavar as mão (banhos, devido a essa dificuldade e ao frio, não tem frequência diária). Ou seja, a produção de esgoto era mínima, o sistema de fossa sumidouro adotado por eles mostrava-se suficiente para garantir a preservação da região, nossa preocupação inicial.

Precisando dar um passo atrás, sentei para conversar com Lakpa sobre de que forma poderia ajudá-los, de preferência no fornecimento de água (neste momento eu imaginava a implantação de água encanada nas casas e lodges), quando ele me relatou que no inverno e início da primavera o problema da água se agravava: o precário sistema já não fornecia devido ao congelamento da captação e precisavam buscar água ainda mais longe.


Definitivamente precisava entender melhor o problema. Por isso, no dia seguinte pedi para ele me mostrar as estruturas existentes e como funcionava este sistema de água. Caminhamos até o ponto mais alto da cidade, o monastério, que também estava em obras por haver sido destruído durante o terremoto e ele me apresentou ao Lhakpa, responsável pelo tal sistema, e que estava também coordenando as obras, realizada de maneira comunitária pelos próprios moradores. Lhakpa me explicou em mais detalhes o funcionamento: a água é captada em um pequeno riacho e através de uma tubulação (não enterrada) levada até um reservatório que serve apenas como passagem; e deste reservatório entra em uma rede de distribuição que chega à 5 "chafarizes", sem torneira, com fluxo contínuo, onde as pessoas enchem suas vasilhas e levam para casa. O sistema não possui torneiras para evitar o congelamento da água dentro da tubulação.

Acontece que com o terremoto de 2015 a estrutura geológica da região foi afetada, e o riacho que antes tinha vazão contínua durante todo o ano já não tinha tanta água, o que o leva a congelar nos períodos mais frios.


Discutimos possíveis soluções para o problema, sendo a principal a instalação de uma nova captação mais distante. O terceiro dia foi dedicado à conhecer pessoalmente estes locais, e felizmente estava com meu GPS, um Garmin Fênix 3, e rastreador SPOT, através dos quais pude tirar a localização exata de todos os pontos, assim como suas cotas. Este material serviria como base para posteriormente podemos fazer estudos de viabilidade para possíveis soluções de engenharia.

Mas sem estudos mais detalhados não seria possível determinar a melhor solução, ou sequer quais eram viáveis tecnicamente.




Próximos Passos

Agora precisava voltar ao Brasil e com as informações levantadas propor soluções. Há muito tempo sem fazer projetos encontrei no Evandro, um ex-colega e amigo de faculdade, e sua equipe na Arvut, consultoria em engenharia, apoio para compreender nossas possibilidades. Também se juntou a nós a Liesbet, outra companheiroa de faculdade, e assim, junto com o Angel, formamos o time de 4 pessoas que ao longo de 2020 se reuniu, online devido a pandemia, periodicamente e transformou o que era um sonho e uma ideia em uma solução. O Evandro, à frente da equipe de engenharia, elaborou três pré-concepções, de três possíveis diferentes soluções, com esboço e orçamento, que nos deram uma ideia inicial de custo da implantação, mas ainda precisariam ser validadas informações in loco para termos um projeto final de engenharia. A Lies, doutoranda nos EUA, acionou e construiu uma rede de contatos de pessoas acostumados a trabalhar com projetos deste tipo e que forma fundamentais para pensarmos os próximos passos. E o Angel, com a 1% e sua rede de pessoas, começou a elaborar estratégias para levantarmos recursos.


Ao longo de 2020 fizemos tudo que poderíamos fazer a distância, e agora chegou a hora de começar a colocar a mão na massa! Esta primavera pretendemos ir a Phortse validar informações de campo para o projeto final de engenharia e apresentar tudo em que estivemos trabalhando para a comunidade de Phortse, instituir com eles um grupo de trabalho local que estará à frente deste projeto, e esperamos, até o final do ano, ver água correndo em Phortse, seja inverno ou verão!!!


vilarejo de Phortse e Khumbila, a protetora do vale do Khumbu, acesso ao Camo Base do Everest
Phortse e a montanha Khumbila, a protetora do Vale do Khumbu