Como (ou quando) o montanhismo entrou na minha vida

"Ouse sonhar!"

Provavelmente você já me ouviu falar, ou escrever, essa frase (inclusive foi título de um post). Nas palestras que faço, principalmente para estudantes, esta é a mensagem que tento passar. Acredito que realizações e conquistas são consequências das decisões que tomamos ao longo da jornada, e sonhar é o passo a ser dado para se iniciar. Mas nem sempre essa clareza me acompanhou.

Sempre considerei o início da minha conexão com o montanhismo o dia que fui escalar pela primeira vez, cerca de 9 anos atrás, a convite de alguns amigos. Doce engano! O montanhismo sempre me fascinou, prendeu minha atenção, e vestir a cadeirinha pela primeira vez foi resultado dessa construção (ou seria desconstrução???) de que eu também poderia estar lá, de que eu também podia sonhar.

Este post é dedicado a isto, contar como o montanhismo entrou na minha vida, e como ele se desenvolveu comigo ao ponto de almejar estar no ponto mais alto do mundo.


1995, Niclevicz, Catão, Brasil e o Everest

Minha primeira memória sobre montanhas e escaladas remete à 1995, mais precisamente abril de 1995, quando eu ainda era apenas uma criança de recém completos 6 anos de idade. Criança inquieta, acordar cedo é uma característica que me acompanha desde que minha primeira memórias de infância. Nesta época a maior fonte de informação era a TV aberta, e os programas de esporte eram minha companhia matinal enquanto aguardava o restante da família despertar, especialmente aos domingos.

E foi assistindo a uma destes programas que descobri que do outro lado do mundo existiam montanhas gigantescas, onde para respirar era necessário levar o oxigênio junto, onde para chegar ao seu topo levavam-se alguns meses, onde "vivia-se" em barracas... e onde uma dupla de montanhistas brasileiros ia em busca dos seus sonhos. Jamais tinha ouvido a palavra Everest antes, ou sequer recordo de ver imagens destas montanhas, mas aquilo me fascinou, e durante toda a expedição do Wademar Niclevicz e do Mozart Catão estar em frente à TV nos domingos de manhã era obrigatório. Acompanhar sua chegada ao cume, mesmo que de longe e com atraso de alguns dias foi emocionante. Eu também queria ser um explorador, ir onde poucas pessoas tinham ido!

Mas eu tinha apenas 6 anos, morava no interior do Rio Grande do Sul, e minha experiência mais próxima com neve tinham sido os enfeites da árvore de natal. Ao mesmo tempo que fiquei fascinado, fiquei frustrado, pois não estava ao meu alcance fazer o que aqueles caras estavam fazendo. E, sim, me resignei, a montanha para mim era algo que tu tinha visto na TV!


Henrique Franke com o primeiro brasileiro a escalar o Everest
No Jamboree Pan Americano com Waldemar Niclevicz

Vivenciando a exploração e a aventura

Apesar de achar que o montanhismo não era exatamente para mim, nos anos seguintes tive contato com experiências que de alguma forma remetem à exploração e a aventura. Algumas em família, como trilhas na Ilha do Mel e em praias do litoral catarinense, mas, sem dúvidas, a mais significativa foi ingressar no movimento escoteiro.


Henrique Franke em acampamento escoteiro
Hernique Franke - Acampamento escoteiro

Aos 7 anos, idade mínima para ingressar, passei a fazer parte dos lobinhos, ramo do escotismo que ambiente os jovens no mundo das histórias do Mogli, a exploração da selva, relação com os animais, e o desenvolvimento de habilidades para sobreviver. Os sábados de atividade eram aventuras à parte, os acantonamentos eram verdadeiras "expedições", e aos poucos o gosto por estar em meio à natureza passou a me acompanhar. Um pouco mais velho e tendo alcançado o Cruzeiro do Sul, a condecoração máxima que pode ser alcançada por um lobinho, passei ao próximo ramo, o escoteiro, e a intensidade das aventuras também aumentaram, principalmente porque começamos a acampar.

Já como escoteiro, em janeiro de 2001, tive a oportunidade de participar do Jamboree Pan-Americano, um encontro de escoteiros que reuniu em Foz do Iguaçu/PR, durante 7 dias de acampamento, mais de 8.000 escoteiros de todas as Américas. Se viajar sozinho (sem os pais no caso), acampar por 7 dias, e encontrar jovens dos mais diversos países, falando em três línguas diferentes, já não fosse extasiante suficiente, foi convidado para a abertura uma pessoa com um nome que eu conhecia, mas não ouvia há algum tempo, Waldemar Niclevicz. As memórias do sonho que eu não acreditava que poderia ser meu também voltaram a mente, e lembro de passar boa parte da cerimônia de abertura em frente ao palco para poder tirar uma foto com ele. De alguma forma os caminhos da minha vida estavam cruzando os do montanhismo mais uma vez.


Os anos seguintes refletem uma adolescência bastante normal (para mim pelo menos rsrsrs), com a característica de nunca ter deixado de ser muito ativo, sempre envolvido com o máximo de esportes possível, na maioria das vezes competitivos, uma característica sempre muito presente em mim. No colégio pratiquei futebol, atletismo, vôlei, handebol, basquete... tendo me dedicado com mais afinco a este último, que inclusive acabou sendo o desencadeador da minha mudança precoce, aos 15 anos, para Porto Alegre/RS, para compor o time da SOGIPA, um tradicional clube da cidade. E a paixão pela natureza era alimentada no escotismo, com acampamentos em família (como as vezes que fomos à Chapada dos Veadeiros), ou pequenas aventuras com amigos (como a travessia do Guaíba com canoas tipo canadense).


Henrique Franke remando em canoa canadense em Porto Alegre