• henriquefranke

Paradigma da Impossibilidade

- "Por que faz isso?"

- "O que sentiu ao chegar lá em cima?"

- "Quanto tempo ficou no cume?"

Estas são algumas perguntas recorrentes quando as pessoas descobrem que já escalei duas das maiores montanhas do mundo. Apesar de aparentemente não terem conexão uma com a outra são perguntas difíceis de responder sem misturar os assuntos.


Individualmente a resposta mais direta para cada uma destas perguntas seria:

- "Por que faz isso?" Para sentir o que se sente lá em cima!

- "O que sentiu ao chegar lá em cima?" Satisfação, frio, fome, cansaço e medo!

- "Quanto tempo ficou no cume?" Apenas alguns minutos, tempo insuficiente para sentir qualquer coisa!


Não faz muito sentido né? Vou tentar explicar!


Os sentimento de alcançar um cume são semelhantes aos sentimentos de alcançar qualquer conquista pessoal que te sejas importante. O sentimento que você tem ao alcançar um objetivo está diretamente relacionado a relação que você tem com esta meta.

Normalmente se relaciona o sentimento de alcançar o cume de uma montanha como o Everest com algo especial por que esta é a relação que a maioria das pessoas tem com este objetivo! Para a maioria das pessoas é um feito impossível, do qual elas não se sentem capazes, logo acreditam que realizá-lo deva trazer sensações não alcançadas ao cumprir objetivos mais, digamos assim, normais.


Aqueles que se propõem a escalar a montanha já quebraram o paradigma da impossibilidade. Para elas aquilo é possível de ser realizado, e por isso elas estão ali. Pelo menos este sempre foi meu sentimento, sempre soube que teria muitas dificuldades pelo caminho, e que deveria estar muito bem preparado para enfrentá-las. Porém, sabendo que é possível resta o questionamento sobre a capacidade individual - ok, é possível, mas serei eu capaz também?

Eu também, claro, muitas vezes duvidei que pudesse conseguir e ao colocar meus pés naquele pequeno ponto de neve e rocha mais alto da face da Terra esse sentimento de dúvida se rompeu, desapareceu. Após realizado a dúvida sobre nossa própria capacidade se evapora e resta apenas a satisfação de ter alcançado àquilo a que te propôs.

Este é o sentimento de alcançar o topo do mundo, satisfação! Satisfação com minha própria capacidade! E naqueles breves minutos que fiquei lá em cima, que pareceram uma eternidade, é apenas isso que pude sentir, porque ainda havia um longo caminho de volta, estava muito frio, e estava há praticamente 12 horas sem comer e 30 horas sem dormir, tinha medo que o cansaço me traísse!


Ou seja, o tempo que ficamos lá em cima é muito breve, e naquele exato momento não conseguimos entender o que de fato alcançamos, apensas estamos muito satisfeitos! E é assim que deve ser, devemos nos conceder este momento de pura, e apenas, celebração!

Algumas vezes isso é frustrante para quem está ouvindo essa história, pois esperam que tivemos uma grande iluminação ou algo mais profundo! Parece clichê, mas a verdade é que os verdadeiros aprendizados da escalada estão na escalada, e o alcançar o cume é apenas um pedaço dessa jornada! Por isso considero irrelevante o tempo que conseguimos ficar lá em cima!


E é em busca deste sentimento de plenitude, em que nada além dessa pura satisfação importa que continuo me desafiando a escalar outras montanhas. Porque é durante a jornada da escalada que todo esse processo acontece:

Ao definir qual montanha vou escalar passo pelo processo de aceitação de que é possível chegar ao seu cume! São inúmeros os momentos ao longo da jornada que penso em desistir, que não acredito na minha preparação, que duvido da minha capacidade. A luta mental que ocorre enquanto estamos perdidos em nossos próprios devaneios em meio ao silêncio daqueles gigantes de pedra é intensa e constante. E isso não ocorre apenas uma vez, mas a cada passo praticamente, depois de muita dúvida e questionamento damos o próximo, e entendemos que era possível, mas duvidamos do próximo, e após segundos ou minutos, que parecem eternos, de muita luta mental, decidimos tentar novamente, e assim repetidamente, até chegar ao ponto culminante, ou até cedermos e aceitarmos nosso próprio despreparo, naquele momento, e darmos meia volta!


Então a verdade é que o que sentimos ao alcançar o cume de uma montanha, seja ela o Everest ou qualquer outra que assumas como teu desafio, está diretamente relacionado com todo o processo da jornada!


Ah sim, tem a paisagem, que pode ser deslumbrante se estiver num bom dia, e aterrorizante num dia ruim! Alcançar o cume, para mim, significou uma relação de irrelevância com a paisagem, a minha irrelevância perante a imensidão do mundo! Mas isso é tema para nosso próximo post!



Feliz com o momento atual independente de quão difícil pareça o caminho futuro


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