Segurança, uma questão de gerenciamento dos riscos

Atualizado: Fev 4

"É muito perigoso!"

"Tu não tem medo de morrer?"

"Eu teria medo!"


É inevitável, o montanhismo é sempre relacionado à risco, no caso, risco eminente de morte ou lesões muito graves. E comigo não é diferente, ao mesmo tempo que tinha uma curiosidade tremenda de experimentar alta montanha, também tinha muito medo, um dos motivos que me levou a começar com um curso de escalada em gelo, como comentei no post anterior.

Fazer o curso não me fez deixar de ter medo, mas me ensinou a lidar com ele, e principalmente com os fatores geradores deste medo. Além disso, a experiência em montanha, me fez encarar o medo como um aliado, aquele "amigo" que me faz ter precaução e submeter minhas expedições (todas elas, desde um dia de escalada até uma escalada em um 8.000m) a uma gestão de risco ampla. Quando estou muito confiante e de certo modo sinto a ausência de medo entro em estado de alerta, pois posso estar negligenciando riscos que eventualmente deixei passar.


Este post é dedicado a explicar um pouco de que modo estruturo essa gestão de risco, bem como explicar um pouco que equipamentos e serviços me utilizo a fim de tornar as atividades mais seguras (e de certa forma mais tranquilas para aqueles que estão em casa, que acabam sendo os que mais sofrem).


De maneira geral abordo a segurança em meu planejamento com enfoque em quatro pilares:


Planejamento

Este é um assunto amplo, e que muitas vezes parece não estar relacionado ao fator segurança, mas são os problemas de planejamento que tendem gerar situações de risco e emergência em uma escalada. Gosto de montar um planejamento baseado em respostas a algumas perguntas :

- Quantos dias/horas a atividade demandará? Em condições normais, e também ocorrendo contratempos previsíveis. A resposta a esta pergunta norteará toda provisão de suprimentos (alimentos, gás, medicamentos, etc) e equipamentos.

- A que nível de isolamento estaremos submetidos? Está pergunta nos proverá informações para estabelecer o quanto precisamos estar preparados para gerenciar de maneira autônoma situações de risco ou acidentes. O nível de isolamento também nos auxiliará a decidir que tipo de equipamentos de comunicação devemos levar conosco.

Importante: Caso não se sinta confortável com o nível de isolamento considere postergar sua expedição para quando tiver mais experiência.

- Que altitude máxima alcançaremos? Diretamente relacionada a primeira pergunta, a altitude máxima a ser alcançada nos proverá informações sobre a necessidade de dias extras de aclimatação na montanha, bem como provisão de medicamentos e equipamentos que nos auxiliem a identificar o bem estar de todos participantes.

- Qual a disponibilidade de água na região e no período? Nem sempre teremos água disponível, algumas vezes estará congeladas, outras vezes será turva, outras vezes precisaremos transportar. E as condições podem ser muito diferentes em diferentes temporadas e estações do ano. Negligenciar a disponibilidade de água pode transformar uma atividade simples em uma tragédia.

- Qual a exigência técnica da atividade? Gosto de dividir esta resposta em duas: em condições "normais" que habilidades e equipamentos serão necessários, que determinará que equipamentos todos integrantes devem ter; e em casos extraordinários, como nevascas extremas ou necessidade de resgate, que equipamentos extras pelo menos o guia, ou inclusive mais integrantes, precisam ter.

Estas respostas, sempre que possível, devem ser respondidas tendo como fonte relatos e experiências de pessoas que já estiveram no local da expedição, e dados da geografia da região. Ou seja, não existe um banco de dados único, e quanto maior nossa base de pesquisa maior nosso acesso a fontes.


Procedimentos

Assim como toda atividade, extrema ou não, o montanhismo tem suas boas práticas, e tal qual devem ser seguidas. Divido os procedimentos a serem adotados em três categorias:

Técnicas de Escalada - os procedimentos de segurança em escalada são semelhantes nos diversos ambientes que possamos estar submetidos, seja uma escalada esportiva, um big wall, uma escalada alpina ou uma das montanhas de 8.000m, e não pretendo neste artigo descrevê-los, e para isto temos manuais e cursos de escalada muito bons.

Gosto sempre de ressaltar que estas boas práticas devem ser aplicadas sempre, independente de a situação demandar precaução ou não, pois nos momentos de crise, por instinto, tendemos a executar as ações a que estamos acostumados, e não aquelas que sabemos estarem corretas. Então em momentos de "mar calmo" a prática dos procedimentos corretos nos serve como treinamento ao cérebro para quando os dias de "tempestade" chegarem.


Protocolo de Comunicação e Resgate - além dos procedimentos técnicos e de aplicação direta pelos integrantes da expedição, que citei acima, tem um procedimento que costumo adotar e que considero de máxima importância em termos de segurança: deixar uma ou mais pessoas que não irão participar da escalada cientes do cronograma e responsáveis por dar início a uma campanha de resgate previamente acordada.

Na verdade, no caso das expedições de alta montanha, estabeleço uma cadeia de comando, com responsáveis independentes e aptos a entrarem em contato entre si:

1º - Responsável pelo refúgio/hospedaria/hotel (último local estruturado que fiquei hospedado e para onde retornarei ao final da expedição): estará ciente dos planos detalhados, inclusive data exata para retorno e será a primeira pessoa a perceber atraso e por ser conhecedora da região estará mais apta a acionar montanhistas locais ou resgatistas;

2º - Guarda-Parques (caso o local conte com este tipo de equipes): estarão cientes dos planos gerais da expedição e cientes de uma data estimada de retorno. Caso não sejam acionados pelo 1º, normalmente após 2 ou 3 dias após a data estimada entram em ação;

3º - Familiar ou Responsável no Brasil: pessoa de co