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Trekking Cordón del Plata - Últimos dias

A subida ao Cerro Lomas Blancas fez o pessoal suar! Era incrível a cara de satisfação de cada um de ter chego ao cume... aquela sensação de cansaço misturada com satisfação e gostinho de "eu sou f***"!!


Nosso cronograma contava com 1 dia livre, que pretendia utilizar caso o tempo não colaborasse, ou, com tempo estável, como um dia de descanso nos últimos dias de expedição! Mas assim que retornamos ao refúgio o grupo entrou em negociação! Apesar de muito felizes com o dia de cume, e eu muito satisfeito com o rendimento de todos, estavam muito cansados e propuseram que antecipássemos o uso desse dia livre!

Como o dia seguinte era 31/dez, e junto com os responsáveis do refúgio planejava uma pequena celebração de ano novo, fiz a eles uma contraproposta: iríamos manter a programação do dia 31, já planejada para ser um pouco mais leve, e descansaríamos no dia 1. Isso nos permitiria estender um pouco mais as celebrações de reveillón sem o compromisso de precisar madrugar no dia seguinte.


Dia 4 - Piedra Grande, Salto del Água... ou não!

Acordamos um pouco mais cedo que o normal, para garantir que voltaríamos igualmente cedo, e evitar que qualquer imprevisto nos impedisse de celebrar a virada de ano junto aos demais montanhistas com quem compartilhávamos o refúgio.

Já mais habituados com a dinâmica de caminhar em terreno ingrime, e considerando que o início da trilha se repete a cada dia, começamos o dia com um passo um pouco mais moderado, mas mais contínuo, o que nos permitiu avançar, na média, um pouco mais rápido! Subimos praticamente sem descanso (e com bem menos reclamações rsrsrs) até a Veguita, onde fizemos uma primeira parada. Apesar do ritmo bom, estava preocupado com a Marina, que tinha relatado um pouco de dores no joelho na descida do dia anterior, e relatava certo desconforto. Porém, a empolgação dela não permitia que pedisse arrego e, apenas para que sentisse mais confiança na pisada, providenciamos uma tala com uma atadura elástica do kit de primeiros socorros. Além de tudo, o dia estava agradável para caminhar, com algumas nuvens não sofríamos com o sol.

Depois de breve descanso seguimos adiante. O plano do dia era alcançarmos o acampamento de Piedra Grande, e, dentro do possível, o acampamento Salto Água, para que os pudéssemos vivenciar um pouco a dinâmica das expedições junto aos montanhistas lá acampados. Assim que entramos no pequeno vale que nos afasta do caminho à Veguita Superior e nos direciona ao nosso objetivo o tempo começou a mudar, com a entrada de algumas nuvens. A dedicação imposta no trecho inicial também cobrava um pouco do seu preço e avançávamos um pouco mais lentos, mas nada que comprometesse os planos do dia.

Este pequeno vale que comentei inicia relativamente plano, até o momento que cruzamos o rio que o forma, então a inclinação sofre uma mudança um pouco drástica. A partir desse momento, devido aos passos altos, as dores da Marina se intensificaram, e isso era visível na diminuição do seu ritmo, e mudança de humor, apesar de ela não admitir.

Mas pouco mais de 1:30h após sairmos da Veguita chegamos até Piedra Grande. As nuvens já estavam mais densas e na mesma altitude que a gente, o que nos fez ao longo do caminho vestir as jaquetas anorak (corta vento) e nos mantermos mais abrigados. Em Piedra Grande fizemos uma parada um pouco mais longa, com direito a um lanche mais robusto e muita hidratação! Conversamos muito, e Caio e Jéssica, que já eram amigos da Marina, tentavam acalmá-la e tranquilizá-la caso decidisse retornar. Eu achava que ainda não era o caso, mas sabia que dificilmente chegaríamos até Salto Água uma vez que o trajeto era bastante desafiador deste ponto em diante, mas mais ainda, em especial no infernillo, o último trecho antes de alcançarmos o acampamento.

A partir de agora não haveriam trechos planos para "descanso ativo", e, além disso, as nuvens que se mantinham ao nosso redor nos desanimavam um pouco, em virtude de impedir uma das coisas mais bonitas deste trajeto, a apreciação do vale que de descobre às nossas costas.

Avançamos mais meia hora aproximadamente, sem o tempo apresentar qualquer melhora. Cruzavam por nós alguns montanhistas que retornavam, relatando que o clima se mantinha encoberto desde o dia anterior, o que significa a massa de nuvens era alta. As dores da Marina se intensificaram com o aumento do aclive, enquanto ela "discutia" consigo mesma sobre decidir retornar ou insistir em continuar. Conversamos bastante e pedi que ela fosse muito sincera, consigo e conosco, sobre o que sentia, e propus que andássemos mais meia hora para enfim tomar uma decisão. Porém, a dor começava a cobrar um preço alto e não chegamos a persistir por tanto tempo, ela percebeu que cada passo a mais subindo significaria pelo menos mais um descendo, e que a força ao descer, e a dor também, seriam ainda mais intensas.


Começamos a retornar e assim que nos aproximávamos de Piedra Grande propus que fizéssemos novo descanso, para permanecer um pouco mais, e desfrutar da companhia das montanhas! Para minha surpresa, quando chegamos ao acampamento encontramos com o Bernie (que foi meu guia no Aconcágua), que havia tentado encontrar em Mendoza mas não havia conseguido. Ele estava guiando um casal de europeus que fazia um hiking na região.

Aproveitando o jetboil que trazia comigo na mochila esquentei água e desfrutamos de uma sopa cada um, além de um mate, que ajudou a esquentar o corpo que se esfriava em função do frio trazido pelas nuvens.


Apesar de mais lento, o retorno foi tranquilo, e chegamos cedo ao refúgio. Tivemos boa parte da tarde para descansar enquanto aguardávamos a hora de brindar o ano que começaria!

Em virtude do feriado o refúgio havia se enchido um pouco mais, e dividimos a mesa da ceia com aproximadamente 15 pessoas! Comemos e conversamos por algumas horas, enquanto aguardávamos a meia noite.

Sem grandes extravagâncias foi um ano novo muito tranquilo, exatamente como se espera de um ambiente de montanhas, em que pudemos se divertir com aqueles que nos acompanhavam, ao mesmo tempo que o céu lá fora, já sem nuvens, nos brindava um estrelar contagiante. Acho que não haveria forma melhor de se começar uma nova etapa (e quem sabe seja isso que esteja me dando equilíbrio nos momentos tortuosos que vimos vivendo).


Dia 5 - 1º de janeiro de 2020

Depois de dois dias intensos tive que dar o braço a torcer, era hora de descansar! Mas parece que não fui só eu: o dia amanheceu chuvoso! Se tivéssemos programado escalar provavelmente teríamos que alterar os planos também!

Acordamos sem compromisso de horário! Eu, acostumado que sou a levantar cedo, assim o fiz, preparei um mate e aproveitei a manhã para ler! Assim que os outros levantaram desfrutamos junto do amargo e muito bate papo, entre a gente e demais montanhistas do refúgio!

A tarde, ainda nublado e chuviscando, foi dedicada à sessão de cinema no refúgio San Bernardo! Se fossem os dias de hoje (abril de 2020, para quem nos lê em tempos futuros) diria que estávamos em quarentena!


Dia 6 - Cerro San Bernardo

No plano original do Circuito de Trekkings do Cordón del Plata subir o Cerro San Bernardo, 3.800m, era etapa inicial do roteiro! Como mencionei no post anterior, Luis e Sandra (proprietários do refúgio) me desencorajaram a fazê-lo, por ser uma montanha de dificuldade um pouco acima do que esperava! E eles tinham razão...


O primeiro desafio se deu antes de iniciarmos: com as dores que havia sentido no dia 31 estava com receio em a Marina nos acompanhar em terreno tão íngreme, tudo indicava que qualquer tentativa significaria que todos voltaríamos mais cedo! Felizmente, antes mesmo de eu precisar pensar em como abordá-la sobre o assunto, ela perguntou se poderia nos acompanhar até a Veguita, onde iria fazer fazer trajetos mais curtos e desfrutar do dia enquanto subíamos ao cume. Já havíamos cumprido esse trajeto inicial 3 vezes, o que me deixava tranquilo em deixá-la só, já que caso decidisse retornar já conhecia bem o caminho, mas, apenas por segurança, deixei com ela um rádio de comunicação programado na mesma frequência que o meu.

Depois da moraina que separa a Veguita da encosta do San Bernardo nos despedimos da Marina e seguimos caminho Caio, Jéssica e eu! O Cerro San Bernardo inicia com uma subida longa e constante em aproximadamente 35º de inclinação, ou seja, subida pesada sem descanso! Mas já era possível perceber, e eles mesmo comentavam, que a aclimatação dos dias anteriores havia funcionado, os dois estavam avançando muito bem, respeitando os intervalos e paradas apenas nos períodos combinados para garantir que não extrapolaríamos a previsão de tempo que tínhamos. Como a previsão do tempo não era das melhores para a parte da tarde, era importante que não houve atrasos significativos.

Depois de aproximadamente 2h de escalada mudamos de condição de terreno, o que era mais arenoso, com pedras menores, virou um pouco mais de acarreio, com pedras grandes e soltas, somadas a uma exposição um pouco maior. A trilha seguia estreita.

Esse trecho foi um pouco mais rápido, cerca de 1h, quando vencemos a última subida de escalaminhada e entramos numa região totalmente pedregosa, em que a rota era marcada apenas por totens, sem sinal de trilha! Não contávamos com tracklog da rota, mas registrava nosso caminho no meu Garmin, por segurança! Quando as nuvens permitiam era fácil visualizar o caminho, mas em nenhum momento do dia visualizávamos o cume, pois estava totalmente nublado! Escalamos nestas condições por aproximadamente mais 2h, quando alcançamos o cume, ou o que pensávamos ser o cume. Parecíamos estar na parte mais alta da montanha, já que do ponto que estávamos, para qualquer lado que fossemos teríamos que descer: fomos traídos pelas nuvens que encobriam totalmente o cume principal, e só nos demos conta pela ausência de cruz, elemento marcante em todos os cumes desta região dos Andes.

Caio e Jéssica já estavam bastante cansados, e principalmente psicologicamente desgastados. Pedi que fizessem uma breve pausa onde estávamos, se hidratassem e comessem, enquanto ia fazer um reconhecimento do local! Andei menos de 5 minutos quando as nuvens proporcionaram uma pequena brecha do céu exatamente na direção do nosso objetivo, e visualizamos a silhueta da cruz de cume: estávamos a menos de 50m dela. Retornei ao ponto onde eles descansavam, a fim de que se sentissem mais confortáveis sugeri que deixassem suas mochilas ali, e seguimos mais leves. Apesar de muito próximos ainda tardamos quase 1h até o cume, uma vez eram diversos trechos curtos de escalaminhada, e o cansaço já cobrava seu preço!

Apesar de já ter escalado bastante, foi a segunda montanha que escalo e alcanço o cume sem poder visualizar nada desde seu ápice! Num primeiro momento pensei que pudesse ser mais frustrante, mas alcançar a cima, e, ainda, poder proporcionar a essas pessoas que nunca tinham pensado em subir uma montanha, que também o fizessem é incrivelmente recompensador! Mais uma vez o montanhismo me mostrou que as histórias que vivemos não são determinadas pelo seu fim, mas pelas experiências que compartilhamos!


Descansamos bastante e retornamos já sem condições de visibilidade alguma, precisando se orientar completamente pelo tracklog que havia registrado na subida! Conforme descíamos deixamos as nuvens para trás e alcançamos altitudes mais baixas, com melhor visibilidade! Neste momento, já mais confiante com o caminho aconteceu algo que não esperava:

Caio me chamou e pediu para que assim que entendesse seguro eu andasse um pouco rápido e deixasse ele e Jéssica mais a sós! Era a primeira experiência de montanha deles, e ele estava fascinado, tanto que ele escolheu aquele momento ali para fazer quem sabe o pedido mais difícil para alguém apaixonado! Sim, meu grupo de montanha se encerrou com um pedido de casamento!!!


Como não podia deixar de ser, mais próximo a Veguita cedi esse espaço a eles e tentei contato com a Marina pela rádio, já que mais cedo ela já havia nos avisado que retornaria o refúgio. A ideia era preparar alguma surpresa, mas não tive sucesso no contato!


Assim que chegaram a meu encontro estavam radiantes, mas eu já não sabia mais porque! rsrsrs


Chegando ao fim

Dia 3 de janeiro, nosso sexto dia de expedição foi de folga e comemoração! A subida ao Cerro San Bernardo foi bastante desgastante, e somado à impossibilidade da Marina nos acompanhar o grupo decidiu por utilizar esse dia para descansar e desfrutar de um almoço e uma das tantas vinícolas da região! Fomos recebidos na vinícola Nieto Sentinier, com um almoço que marcou à altura o encerramento dessa viagem incrível!


Obrigado Marina, Caio e Jéssica por me darem a oportunidade acompanhá-los em sua primeira experiência em montanhas de altitude! Espero que tenham saído tão satisfeitos quanto eu!





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Henrique Scalco Franke 

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