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Aconcágua: Dia 12

    Dia de cume!!

    Deitamos cedo, pelas 19h, acordamo às 2:30h. Na verdade a ansiedade me fez acordar um pouco antes, 2:30h foi a hora que nos chamaram "oficialmente". Um pouco antes de dormirmos o Carlos havia passado nas barracas avisando para colocarmos as botas para o lado de dentro, e inclusive deixar a parte interna delas dentro do saco de dormir, assim o fiz!     Tomamos café, arrumamos as coisas, e às 3h estávamos, eu e Sasha, praticamente prontos. Decidi "cochilar" mais uns 40min, já que a saída estava combinada para as 4:30h. Levantando um pouco antes das 4h daria tempo para ir ao banheiro, colocar as botas e ficar pronto para partir com o grupo. Mas cometi um erro, fui primeiro ao banheiro, depois vesti as botas, já do lado de fora da barraca, e o frio de quase -30ºC não perdoa, senti os pés quase como congelados até o sol tocá-los, o que só iria acontecer após as 9h da manhã.
Vista do último descanso, aproximadamente 6.800 msnm

"São 3h da manhã, Acordamos às 2h para tomar café, nos arrumar, e agora estamos esperando chegar mais próximo da hora de sair para arrumar as coisas que só podem ser feitas lá fora.   Ansiedade está um pouco grande, mas acho que sairá tudo bem. Está ventando um pouco mais do que esperava, mas esperamos que com o decorrer do dia diminua. Céu está limpo e estrelado." Campo Cólera (campo 3), Parque Provincial Aconcágua, 19/jan/2017 - 3h


   Às 4:30h começamos a caminhar. Havia um outro grupo, relativamente grande diante de nós, mas íamos num bom passo. Uma companheira, após uma hora de caminhada aproximadamente, precisou retornar ao acampamento, não passava bem, o que depois praticamente concluímos como ansiedade. Edu puxava um ritmo forte, e assim seguimos até o primeiro descanso, em 'Piedras Blancas, continuamos no mesmo ritmo até o segundo descanso, quando então já havia nascido o Sol, o que é de grande valia numa empreitada dessas, não só vemos melhor o caminho, como a sensação de bem estar pelo calor também é incrivelmente boa.     Chegamos nesta segunda parada um tanto quanto cansados já. Fizemos uma parada um pouco mais longa, para hidratar, mas também colocar os crampons, que vestiríamos até o fim a partir dali. Subimos um lance rápido de caminhada em gelo, e estávamos, literalmente, onde o vento faz a curva. O vento nos empurrava, e era uma barreira mais a vencer. O vento derrubou a sensação térmica, numa parada para lanche rápido tirei as luvas por 2 a 3min, apenas o tempo de abrir a mochila e pegar o lanche, levei meia hora para reaquecer as mãos com as luvas pinguins, nem consegui comer direito com medo de congelar as mãos.


Cume do Aconcágua, com cume sul ao fundo!

    A partir do ponto que o vento já acalmava, iniciava um trecho extremamente íngreme, que se manteria no mesmo nível de dificuldade até 'la cueva', onde faríamos a próxima e última parada longa. Neste trecho o grupo se dispersou um pouco, pois o cansaço já se mostrava presente em alguns, inclusive em mim, obrigando a adotar um ritmo mais lento. Chegamos na 'cueva' pelas 11:30h, dando-nos o direito de descansar cerca de meia hora, deixando mais 3h para chegar ao cume. Em linha reta não eram mais que 200m, em minha mente estávamos sobrando!     Doce ilusão!! Se já estava exausto quando paramos, bastaram cerca de 10 min de caminhada para me sentir esgotado novamente. Disse para Edu que continuassem, que seguiria no meu ritmo até o grupo que vinha atrás me encontrar, e então seguiria com eles. Ao me ver mais para trás, Bernie, nosso guia argentino, apertou o passo e chegou ao meu encontro. Eu não conseguia dar mais de dois passos de uma só vez, extremamente cansado. Ao olhar o caminho que faltava, curto mas muito íngreme, e lembrando do que havíamos passado até ali, comecei a duvidar das minhas condições de chegar ao cume e voltar em segurança!


Cume do Aconcágua - 6.962 msnm

    Com o tempo quase todos foram chegando ao mesmo nível de cansaço, e os três pequenos grupos que haviam se formado já estavam praticamente andando juntos novamente. Cada vez mais próximos do cume, sentia um misto de emoção e desespero pelo cansaço, mas o grupo todo junto cumpria uma função primordial, apoiávamos mutuamente, um podia não saber se conseguiria, mas tinha forças para incentivar o outro!       Num ritmo lento, e um apoiando ao outro, às 15h do dia 19 de janeiro de 2017, chegamos ao cume do Aconcágua, o cume das Américas. Havíamos conquistado o Sentinela de Pedra, estávamos a 6.962m de altitude, o mais alto que podemos chegar em nosso continente.


Panorâmica do cume, com todo grupo festejando!

     A sensação é indescritível, não sei explicar o que senti ao chegar lá!Chorei muito, lembrei de todos que me apoiaram sem nem pestanejar, e que estavam ansiosos em saber como estava sendo aquele dia! Pelo telefone satelital consegui falar com a mãe, não sei se ela me entendeu, a voz embargava de um misto de emoção e exaustão pelo cansação e pelo ar rarefeito.


Refletindo sobre o que estava acontecendo...

     Curtimos lá em cima por quase um hora ou mais, o tempo estava ótimo, e a logística montada se mostrou impecável! Hidratamos, tiramos muitas fotos, choramos, rimos, e até um 'manequim challenge' conseguimos gravar! Pelas 16h começamos a descer. Com muito cuidado iniciamos o retorno. Apesar do cansaço na subida consegui manter um bom ritmo na descida, e fui um dos primeiros a chegar ao acampamento, ainda com forças para ajudar a receber os mais cansados e preparar o jantar!       A verdade é que chegamos exaustos e conversamos muito pouco, uns foram chegando e indo direto à barraca, a maioria apenas se hidratou e não saiu mais. Fomos nos reencontrar de fato no outro dia de manhã, Ainda um pouco em êxtase, mas todos muito alegres! Agora restava ainda o caminho de volta!!


Retornando ao acampamento! Campo cólera abaixo!

"Às 4:30h saímos para iniciar o ataque ao cume. Como era de se esperar, muita subida, afinal seriam 1.000m de desnível em um dia. Mas para quem esperava 'um trekking' como muita gente diz ser a escalada do Aconcágua, sem dúvida é muito mais que isso, pesadíssimo.      Para mim os últimos metros foram os piores, a ponto de quase querer desistir, só não o fiz porque o pessoal ficou estimulando. De fato valeu a pena, chegar lá foi sensacional, e me fez lembrar de todos que se envolveram comigo neste projeto. Chorei muito, durante a subida por achar que não conseguiria, e ao chegar por ver o resultado de um projeto pessoal ambicioso dando certo.     Estou muito cansado, assim como todo o pessoal. Chegamos de volta pelas 19h, hidratamos, jantamos e agora dormir. São 21h." Campo Cólera (campo 3), Parque Provincial Aconcágua, 19/jan/2017



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